segunda-feira, 28 de março de 2016
Mulher de sertão
No sítio amarelo
Mas sem pica-pau
A menina chorava
Berrava
Que queria ir lavar roupa
Lá no riacho
Com as moças equilibristas
Que carregavam na rodilha
A bacia de roupa suja
(e sabe-se lá quantas dores)
Queria porque queria!
-Não vai! É coisa de pobre!
Tem caramujo, dá doença
Bote na máquina
A máquina
A menina pensou e tentou lembrar
Quando, assistindo na janelinha
a roupa girar
Quando viu ali passar
moças equilibristas?
Quando viu ali
o perfumado caminho da roça
os pés de alecrim
brotando do cháo
se terra seca?
Quando alguma vez se viu
Ali dentro
Riacho de água tão pura
cercado de verde-doçura?
Quando, me diga, quando?!
Ouviu ali
O canto agudo e dolorido
Que não se sabia se vinha
da boca das moças
ou do pranto das roupas
espancadas na pedra
pra desencardir
("Bate do avesso as pecinhas finas
mode não machucar!")
Quando, por fim, alguém viu
Sempre no final
como um ritual
moças regaçando a saia
lavarem os pés nas pedras
esfregando
até afinar
o calcanhar
que o chão do sertão
tratou de engrossar?
(em que pedra esfregariam
até afinar
o coração
que a vida no sertão
tratou de engrossar?)
Não.
Não dava pra lavar a roupa na máquina
Não que ali não tem
Pé de alecrim nem riacho
Nem tem canção de moça
Nem choro de roupa
(nem choro de moça
e canto de roupa)
Não que ali não tem
Moça equilibrista
Equilibrando na rodilha
dois pesos desequilibrantes
O da roupa suja
E o da luta dura
De ser
De existir
E resistir
Mulher de sertão
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