Prisão de vidro, prisão de ferro, prisão de barro
Peixe, bicho e mato
Mero enfeite de sala
Mas do meu sofrimento ninguém fala
Ninguém fala porque meu grito é silencioso
Minhas lágrimas se confundem com orvalho
E se meu pés tentam se espreguiçar no cascalho
Dão topadas nas paredes do jarro
Sufocam, encolhem, atrofiam, aleijam
Trombose em forma de buquê
Mas o meu sofrimento ninguém vê
Se por baixo não posso me enterrar na Mãe
Por cima tento tocar o Pai
E então amputam-me os braços em poda
"Pra crescer mais formosa"
Escrava, reclusa, presa
Tiraram-me da natureza
E agora, tiram a natureza de mim
Não me deram nem um jardim
Nunca tomei banho de chuva
Nunca brinquei com insetos
Raramente me visitam os ventos
Pra me tirar para dançar
Mas o meu sofrimento ninguém ouve
Cansada, afrouxo as veias
Desisto da fotossíntese asmática
Analisam minhas folhas feias
"Não sei o que aconteceu"
Não foi falta d'água
Nem excesso
Não foi fungo, praga, ou bactéria
Não faltou adubo nem fertilizante
Agora, caixão de barro vazio na estante
Suicídio de planta ninguém sente
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